O setor de iGaming na Ásia está recorrendo a um grupo cada vez mais restrito de profissionais altamente qualificados. Segundo Chris Lu, fundadora da empresa de recrutamento Usobi, operadores e fornecedores disputam os mesmos 200 executivos seniores para ocupar cargos estratégicos em toda a região.
Durante sua participação na SiGMA Asia 2026, Lu afirmou que a escassez de talentos se tornou um dos maiores desafios enfrentados pela indústria. “Na prática, estamos contratando as mesmas 200 pessoas para posições de liderança na Ásia”, disse. “A concorrência é extremamente intensa.”
As declarações refletem uma tendência observada em todo o mercado global de trabalho, onde empresas enfrentam dificuldades crescentes para encontrar profissionais com competências especializadas. De acordo com o relatório Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial (WEF), quase 40% das habilidades essenciais dos trabalhadores deverão mudar ou se tornar obsoletas até 2030, enquanto a falta de qualificação continua sendo uma das principais barreiras para a transformação dos negócios.
Por que uma contratação sênior pode valer mais do que dez profissionais juniores
À medida que a disputa por talentos se intensifica, Lu acredita que muitas empresas estão adotando estratégias equivocadas de recrutamento. Segundo ela, fundadores e executivos frequentemente tentam reduzir custos contratando grandes quantidades de profissionais juniores, em vez de investir em lideranças experientes. “Dez profissionais juniores não vão transformar a sua empresa”, afirmou. “Eles apenas manterão funcionando aquilo que já está dando certo.”
Em vez disso, ela recomenda contratar um líder experiente e construir uma equipe ao seu redor. Na visão de Lu, profissionais seniores trazem conhecimento, processos estruturados e direcionamento estratégico capazes de impulsionar o desenvolvimento da próxima geração de talentos dentro da organização. “Traga um profissional sênior e permita que ele forme a equipe. Isso pode mudar completamente o cenário”, explicou.
Essa visão encontra respaldo nas tendências mais amplas do mercado de trabalho. O Fórum Econômico Mundial aponta liderança, gestão de talentos, resiliência e adaptabilidade entre as competências que mais crescerão em importância para os empregadores nos próximos cinco anos.
Por que visão de futuro pesa mais do que salário
Embora a remuneração continue sendo um fator relevante, Lu afirma que os profissionais mais qualificados raramente são motivados apenas por dinheiro. Ela relembrou o caso de uma executiva de alto escalão que ajudou a posicionar no mercado no início deste ano. Apesar de ter recebido propostas financeiramente mais atrativas de outras empresas, a profissional optou por aceitar uma oferta com remuneração inferior.
O fator decisivo foi a capacidade da empresa de transmitir uma visão clara de longo prazo. “Eles não venderam apenas uma vaga”, disse Lu. “Eles venderam uma visão.” Segundo ela, executivos de alto nível querem compreender para onde a empresa está caminhando e de que forma poderão contribuir para seu crescimento. “Ela me disse que não sentia estar entrando em um emprego. Sentia que estava se juntando a uma visão.”
Pesquisas recentes reforçam essa percepção. Estudos sobre o mercado de trabalho indicam que empresas que competem por talentos escassos precisam oferecer mais do que incentivos financeiros. Uma análise recente de milhões de vagas relacionadas à inteligência artificial mostrou que empregadores disputam profissionais altamente demandados não apenas por meio de salários competitivos, mas também oferecendo oportunidades de desenvolvimento de carreira, cultura organizacional sólida e perspectivas de crescimento a longo prazo.
Uma pesquisa da Reward Gateway, realizada com 3.200 participantes, revelou que parte dos trabalhadores estaria disposta a abrir mão de um aumento salarial de 10% em troca de fatores como um ambiente de trabalho melhor, maior propósito profissional e oportunidades de crescimento. Refletindo essa mudança de mentalidade, tanto o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos quanto as Nações Unidas definem um “bom emprego” como aquele que oferece proteção social, desenvolvimento pessoal e tratamento justo, além de remuneração adequada.
Três competências que definirão os líderes do iGaming no futuro
Com regulamentações cada vez mais rigorosas e tecnologias como a inteligência artificial transformando o setor, Lu acredita que três competências se tornarão fundamentais para os futuros líderes da indústria. A primeira é a experiência multicultural. “A época em que bastava conhecer apenas um mercado ficou para trás”, afirmou. Com operadores expandindo suas operações para múltiplas jurisdições, cresce a procura por profissionais que compreendam diferentes mercados, comportamentos de consumidores e culturas empresariais.
A segunda competência é o domínio de múltiplos idiomas. Segundo Lu, o inglês continua sendo indispensável, mas profissionais que conseguem combiná-lo com outro idioma relevante possuem uma vantagem competitiva significativa. “O talento bilíngue está se tornando uma nova moeda de valor dentro da nossa indústria”, destacou.
A terceira competência é a familiaridade com inteligência artificial. Para Lu, os profissionais não devem esperar que seus empregadores ofereçam treinamento antes de começar a utilizar essas ferramentas. “Os profissionais que realmente se destacam já utilizam IA todos os dias”, afirmou.
Essa visão está alinhada às conclusões do Work Change Report, do LinkedIn, que prevê que 70% das competências utilizadas na maioria das profissões passarão por mudanças até 2030, tendo a inteligência artificial como um dos principais motores dessa transformação. O Fórum Econômico Mundial também classifica IA e análise de dados (big data) entre as habilidades com maior crescimento global, ao lado de cibersegurança, alfabetização tecnológica e liderança.
A ênfase dada por Lu à inteligência artificial reflete uma transformação mais ampla já em andamento em diversos setores da economia. Pesquisas acadêmicas que analisaram milhões de vagas de emprego identificaram uma crescente demanda por competências complementares à IA, incluindo alfabetização digital, trabalho em equipe e adaptabilidade. Os pesquisadores concluíram que a inteligência artificial está ampliando a demanda por profissionais capazes de trabalhar em conjunto com a tecnologia, e não simplesmente substituindo postos de trabalho.
Por que contratações feitas às pressas costumam gerar erros
Muitas empresas do setor de jogos enfrentam pressão para crescer rapidamente, especialmente durante períodos de forte expansão. Segundo Lu, isso frequentemente leva a decisões reativas de contratação. “Quando a receita cresce além da capacidade operacional da equipe, é nesse momento que começa a contratação por desespero”, explicou.
O resultado costuma ser a contratação de profissionais inadequados, desalinhamento cultural e alta rotatividade, gerando custos significativos para as empresas. Por isso, Lu recomenda que organizações iniciem seus processos de sucessão e recrutamento executivo meses antes de uma posição se tornar crítica. “Contratações de executivos seniores não são vagas que você simplesmente preenche”, afirmou. “São relacionamentos que você constrói.”
Ela recomenda iniciar conversas com potenciais candidatos para cargos de nível C entre três e seis meses antes da contratação planejada. Essa abordagem permite que ambas as partes construam confiança, alinhem expectativas e avaliem se existe compatibilidade para uma relação profissional duradoura.
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