Matt Zarb-Cousin, cofundador do Gamban — um dos principais softwares de bloqueio de sites de apostas do mundo — conversou com a SiGMA News sobre a crescente ameaça das apostas ilegais, a corrida tecnológica contra operadores não regulamentados e por que os órgãos reguladores precisam agir com mais urgência.
Ferramentas como Gamban, BetBlocker e Gamblock não servem apenas para quem está tentando parar de apostar. Elas também reforçam a integridade do ecossistema de jogos como um todo. Operadoras licenciadas são obrigadas a oferecer programas de autoexclusão. Já os sites ilegais, não — o que lhes dá uma vantagem competitiva injusta e acesso direto a pessoas que justamente querem se afastar do jogo. Softwares de bloqueio multiplataforma ajudam a fechar essa brecha, protegendo consumidores e promovendo um mercado mais justo para quem opera dentro das regras.
A evolução do Gamban — com bloqueios mais eficientes, suporte multilíngue e integração com serviços de ajuda — reflete uma realidade preocupante: cada vez mais pessoas no mundo buscam apoio para deixar de apostar. “É um crescimento com gosto amargo”, diz Zarb-Cousin, especialmente em países com pouca ou nenhuma regulação para proteger os jogadores.
Alta demanda global
Matt Zarb-Cousin conhece a fundo os bastidores da indústria de apostas e o funcionamento das engrenagens políticas que a regulam. Como cofundador e diretor de relações institucionais do Gamban, seu foco está em ajudar pessoas a restringirem o acesso a sites e apps de apostas. Mas ele é categórico: no mundo ideal, o Gamban nem precisaria existir.
“Na ausência de uma regulação eficaz e de alternativas sólidas de autoexclusão, é melhor que o Gamban exista do que não exista”, afirma.
O software foi projetado para ser difícil de remover. Uma vez instalado, impede o acesso a conteúdos relacionados a apostas em diversos dispositivos e sistemas operacionais. “Queríamos algo que realmente funcionasse. O Gamban foi o primeiro software de bloqueio de apostas compatível com todas as plataformas”, explica.
A demanda é global — e crescente. “Temos visto um número significativo de usuários no Brasil e nas Filipinas, e sem fazer nenhum tipo de marketing nesses países”, revela. “É um dado preocupante, pois mostra o tamanho do dano causado pelo jogo nesses mercados.”
Só em julho, foram cerca de 6 mil novos usuários no Brasil — número semelhante ao registrado nas Filipinas. “Cada download representa alguém que quer parar de apostar e está buscando ajuda para isso”, afirma.
A luta contra o mercado ilegal: um jogo de gato e rato
Mesmo com o avanço dos programas de autoexclusão nos mercados regulamentados, os operadores ilegais agem rápido para explorar brechas no sistema.
“Sites do mercado paralelo estão mirando deliberadamente pessoas inscritas em registros de autoexclusão”, denuncia Zarb-Cousin. “É uma estratégia intencional.”
E o mercado ilegal se adapta com rapidez. “Eles mudam o domínio constantemente para tentar driblar os bloqueios — é como um jogo de ‘whack-a-mole’ (jogo em que você bate num alvo e outro aparece). Novos sites surgem o tempo todo.”
Para acompanhar esse ritmo, o Gamban combina automação com denúncias de usuários. “Temos mais de 300 mil domínios, apps e sites na lista de bloqueio, e esse número cresce em cerca de 300 por dia”, explica. “Utilizamos diversos sistemas para detectar novos sites de apostas à medida que aparecem.”
O envolvimento dos usuários é essencial. “Hoje temos quase 100 mil usuários ativos. Desde que começamos, mais de 400 mil pessoas já utilizaram o Gamban. Muitos dos domínios que bloqueamos foram reportados por eles.”
Zarb-Cousin comenta ainda, com certa ironia, que já existem até sites de afiliados promovendo “cassinos que não estão no Gamban”. “Mas é fácil para a gente identificar esses sites e adicioná-los à lista de bloqueio.”

Parcerias com reguladores — mas sem depender deles
Governos e órgãos reguladores, na visão de Zarb-Cousin, têm agido de forma lenta e reativa. Enquanto isso, o Gamban fecha lacunas na proteção dos consumidores ao formar parcerias com clínicas de tratamento e monopólios estatais.
Na Finlândia e na Noruega, por exemplo, o software é oferecido pelos operadores estatais Veikkaus e Norsk Tipping. “Nesses países, se o jogador se autoexclui da operadora estatal, está fora do mercado regulamentado. Mas continua vulnerável às ofertas ilegais”, explica.
No Reino Unido, o Gamban integra uma coalizão nacional com Gamstop e GamCare. Nos EUA, faz parte do programa estadual Time Out Ohio. Já na Holanda, está sendo testado em um projeto-piloto com o Loket Kansspel, com apoio do regulador local.
Apesar dessas iniciativas, o financiamento ainda é desigual. “Em mercados mais maduros, onde o jogo é legal e regulamentado, há mais recursos disponíveis”, pontua.
Do bloqueio à recuperação
O objetivo da empresa, segundo Zarb-Cousin, vai além de simplesmente impedir o acesso aos sites. “Queremos apoiar de verdade o processo de recuperação dos nossos usuários”, afirma.
Recentemente, o Gamban passou a incluir novos recursos de suporte e direcionamento para serviços de ajuda locais. “Nossa missão é ajudar as pessoas a pararem de apostar e se recuperarem da dependência. Mas a jornada não termina aí.”
O software recomenda o uso combinado com outras medidas, como bloqueio de transações bancárias e serviços de apoio emocional. “O Gamban não é uma cura para o vício. Mas pode ser um importante aliado no processo de recuperação.”
Uma das novidades será o uso de ícones discretos no celular, para evitar constrangimentos. “Vamos permitir que o ícone do Gamban seja mascarado no smartphone. O bloqueio funciona em segundo plano, e a tela de bloqueio nem menciona o nome do app — ela simplesmente não carrega o conteúdo.”
Além disso, a equipe quer ajudar os usuários a entenderem melhor a origem do vício. “Educar sobre como essas plataformas são projetadas para maximizar o engajamento pode ajudar a reduzir o estigma”, diz. “Às vezes, o vício é induzido por design.”
Um apelo por regulação mais eficaz
Crítico frequente da regulação atual no Reino Unido, Zarb-Cousin acredita que o modelo britânico de apostas online está ultrapassado e precisa mudar. “Precisamos de um novo tipo de regulação — e de reguladores mais preparados.”
Ele também questiona o princípio jurídico britânico de “licenciar para permitir”, que limita a margem de ação da Gambling Commission e de autoridades locais. “Isso significa que os órgãos reguladores têm pouca flexibilidade para conceder ou revogar licenças”, critica.
Para ele, é preciso mais do que endurecer regras técnicas. É necessário mudar a forma como a sociedade compreende os danos causados pelas apostas.
No fim das contas, a motivação do seu trabalho é clara: “Para mim, a única forma real de prevenção é via regulação.” E até que os governos cheguem lá, o Gamban continuará fazendo sua parte — um site bloqueado de cada vez.




