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Mercados de previsão preocupam operadores de apostas nos EUA

Ansh Pandey
Escrito por Ansh Pandey
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Os mercados de previsão estão ganhando espaço rapidamente nos Estados Unidos, à medida que os volumes de negociação disparam e novos entrantes expandem os limites do investimento regulado baseado em eventos. Plataformas como Kalshi e Polymarket surgiram como protagonistas em um setor antes considerado nicho, transformando a opinião pública em atividade financeira mensurável.

Dados recentes também evidenciam sua crescente dominância. Em setembro de 2025, a Kalshi registrou um volume mensal de negociações de US$ 1,3 bilhão, marcando um aumento significativo em relação aos trimestres anteriores. A plataforma agora detém cerca de 62% da participação global em mercados de previsão. Na semana de 11 a 17 de setembro de 2025, a Kalshi processou mais de US$ 500 milhões em transações, com interesse em aberto médio de US$ 189 milhões, superando seu concorrente mais próximo, a Polymarket, que registrou US$ 430 milhões em transações semanais e cerca de US$ 164 milhões em interesse em aberto.

Base de usuários em rápida expansão

Apesar de ter sido banida de 2022 até sua retomada, a Polymarket continuou atraindo atenção por engajar usuários comuns em previsões políticas, esportivas e financeiras. Em janeiro de 2025, a plataforma registrou 450 mil traders ativos por mês, um aumento de 91% em relação aos 235 mil de outubro de 2024. Embora a base de usuários tenha caído mais tarde no ano, analistas apontam que esses números indicam uma mudança significativa do público mainstream em direção à especulação baseada em eventos.

Especialistas atribuem esse entusiasmo a uma combinação de cultura das redes sociais e negociação financeira. Os usuários são cada vez mais atraídos por mercados que permitem monetizar opiniões sobre tudo, desde eleições presidenciais até resultados esportivos. Um relatório da KPMG, publicado no início deste ano, destacou que os mercados de previsão estão “transformando o debate público em descoberta de preços em tempo real”.

O ambiente regulatório dos EUA, historicamente fragmentado, vem abrindo espaço gradualmente para essa ideia. A Kalshi opera com aprovação da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), enquanto a Polymarket retornou ao mercado americano adquirindo uma bolsa de derivativos licenciada. Com a Wall Street supostamente de olho em potenciais parcerias, os mercados de previsão podem em breve assumir um papel mais formal no ecossistema financeiro. No entanto, muitas plataformas de jogos tradicionais veem o crescimento dessas plataformas como uma ameaça aos modelos convencionais de apostas.

AGA acende o alerta sobre os “predictors”

Na Global Gaming Expo (G2E) em Las Vegas, o impacto dos mercados de previsão dominou as discussões. O Venetian Expo de 2025 serviu como fórum para debater como plataformas como a Kalshi estão afetando casas de apostas esportivas reguladas por estados e tribos. O CEO da Associação Americana de Jogos (AGA, na sigla em inglês), Bill Miller, emitiu um alerta severo sobre a influência dessas plataformas. Miller afirmou: “A AGA e nossos membros estão mobilizados em todos os fronts. Eles estão ameaçando as comunidades que servimos, os clientes e consumidores que protegemos e os padrões que mantemos.”

Segundo ele, essas plataformas querem oportunidade, mas não responsabilidade. “Por que toda essa enganação? É simples. Eles querem a oportunidade, mas não querem nenhuma responsabilidade regulatória. E não se preocupam com o bem público. Esses atores ilegais não enganam ninguém.” Ele acrescentou: “Chamam isso de inovação. Eu chamo de outra coisa. É ganância, é imprudência e é irresponsabilidade.”

Estados tentam conter a influência

As preocupações sobre os mercados de previsão invadirem o território das apostas esportivas tradicionais vêm crescendo há quase um ano. Essas plataformas online, reguladas federalmente por um painel focado em commodities, operam em todos os 50 estados, incluindo regiões sem apostas esportivas legais, como Califórnia e Texas.

No entanto, alguns estados expressaram publicamente suas preocupações. Recentemente, Ohio ameaçou revogar licenças de operadores de sportsbooks, alertando que a participação em mercados de previsão vinculados a eventos esportivos poderia comprometer o direito de operar no estado. Tem havido um aumento de processos judiciais que refletem o desconforto crescente com a rápida ascensão dessas plataformas, que se apresentam como instrumentos financeiros, mas operam essencialmente como bolsas de apostas.

Muitos desses casos ainda estão tramitando nos tribunais federais, sem previsão de clareza legal a curto prazo. Para especialistas do setor, o problema maior é que grande parte do cenário de apostas nos EUA já opera fora da regulamentação. Hoje, os Estados Unidos registram 74% de apostas ilegais e 26% legais, proporção que se manteve constante este ano.

“Os jovens não acham que estão apostando. Eles realmente acreditam que estão prevendo, e isso torna essas plataformas tão poderosas.”

– Ismail Vali, CEO e fundador da Yield Sec

Em entrevista recente à SiGMA News, Vali afirmou que operadores ilegais continuam dominando devido à acessibilidade e incentivos agressivos. “O jogo ilegal está em toda parte. É todos os produtos — esportes, cassino, pôquer, tudo. Eles oferecem promoções ótimas, não pagam impostos, não possuem licenciamento, não conferem quem você é, e isso os torna fáceis e convenientes para os clientes. Os jogadores podem não receber se ganharem, mas ninguém pensa nisso no momento da aposta.”

Plataformas de previsão, muitas vezes chamadas de “predictors”, estão se expandindo rapidamente nos EUA. Embora sejam apresentadas como ferramentas inofensivas de previsão, Vali disse que são “simplesmente outra forma de apostar”. “É o mesmo produto com embalagem diferente. Você pode chamar de previsão ou forecast, mas no final das contas, é apostar em um resultado futuro.”

Ele criticou as inconsistências da legislação americana sobre jogos. “A lei americana é insana. Só porque um estado como a Califórnia diz que não há jogos online não significa nada, se todo mundo ainda pode apostar ilegalmente pelo celular. A lei está completamente fora da realidade.”

O surgimento dos “predictors” impulsionado pelo mundo cripto

Ao traçar a origem dos mercados de previsão, Ismail Vali destacou que a tendência começou dentro do universo das criptomoedas. “Os mercados de previsão começaram na Binance e na FTX há cerca de nove ou dez anos. Tudo começou com apostas em Bitcoin e na movimentação de ações. Mas como é algo gerado pelos usuários, evoluiu rápido. Logo, as pessoas já estavam apostando em esportes, celebridades e política.” Ele acrescentou: “Você poderia vender Bitcoin para alguém uma vez a cada poucos meses, mas pode vender um predictor a cada 15 minutos.”

Vali alertou que o público com menos de 30 anos é particularmente suscetível a essas plataformas. “Jovens de até 30 anos não acham que estão apostando. Eles realmente acreditam que estão prevendo. Seja lá o que isso signifique, mas não é jogo quando, na verdade, é.”

Inovadores da “zona cinzenta”

Vali observou que plataformas como Kalshi, Polymarket e até a Robinhood aproveitaram essa zona cinzenta legal. “Eles são o que eu chamo de ‘inovadores’. Viram a oportunidade e entraram, porque a lei ainda não os alcançou. Estão ganhando processos e expandindo enquanto os reguladores ainda discutem definições.”

Ele alertou que, sem uma fiscalização mais rigorosa, o setor legal de apostas pode ser sufocado. “O mercado de apostas online americano está sendo pressionado por dois lados. De um lado, o crime e operadores ilegais. Do outro, os inovadores que se dizem legais, mas sugam todo o oxigênio do mercado licenciado. Operadores legais estão sufocando no meio disso.”

Fonte: Yield Sec

Vali enfatizou: “Se você não monitorar, fiscalizar e fazer cumprir as regras do seu mercado, não há como vencer. Os EUA já perderam 74% do mercado de apostas para atividades ilegais. Se você ainda adiciona inovadores semi-legais que não pagam os mesmos impostos ou seguem regras de jogo responsável, você não resolve o problema, você o multiplica.”

Crescimento da visibilidade das plataformas

Vali alertou que a indústria de jogos nos Estados Unidos enfrenta sua maior ameaça até hoje, com operadores ilegais já controlando quase três quartos do mercado. “Agora você está introduzindo outro elemento, que também vai tirar oxigênio dos operadores legais”, disse ele.

Fonte: Polymarket

Ele acrescentou que plataformas como Kalshi e Polymarket estão prontas para lucrar, a menos que os reguladores atuem rapidamente. “Kalshi, Polymarket e todas as outras vão ganhar dinheiro. Estou dizendo a vocês hoje: não, vocês não vão lucrar a menos que monitorem, fiscalizem, façam cumprir as regras e otimizem todos os seus marketplaces nos Estados Unidos. E isso não está sendo feito hoje. Então como diabos vai ser feito amanhã?” questionou.

Vali observou que a visibilidade dessas plataformas cresceu rapidamente, impulsionada por associações com celebridades e exposição nas redes sociais. “Está em todo lugar. É mais notável nos Estados Unidos por causa do debate político e midiático, e também por causa do envolvimento do filho de Donald Trump com a Kalshi. Foi isso que os tornou famosos”, explicou.

Ele também destacou o alcance cultural dessas plataformas. “O último episódio de South Park teve Kalshi e Polymarket. Nunca vi DraftKings ou FanDuel em nenhum episódio de South Park. Isso mostra o quanto elas fazem parte da conversa social”, disse Vali, alertando que essa normalização está levando os “predictors” ainda mais fundo no mercado americano. Em conclusão, ele ressaltou: “isso é global. E o que acontece nos Estados Unidos vai acontecer em todos os outros lugares muito rapidamente.”

Mercados de previsão, ou “predictors”, estão rapidamente borrando as fronteiras entre trading e apostas nos EUA. Especialistas alertam que, com a crescente visibilidade, vínculos com celebridades e normalização cultural, essas plataformas têm um potencial absoluto de eclipsar as apostas regulamentadas.

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