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Por que as pessoas escondem os danos causados pelo jogo?

Sudhanshu Ranjan
Escrito por Sudhanshu Ranjan
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

O acesso ao jogo nunca foi tão fácil — seja por aplicativos no celular ou pelas casas de apostas espalhadas pelo país —, mas os riscos associados ao hábito raramente entram na conversa pública. Quando a diversão começa a sair do controle, o silêncio costuma ser a primeira reação, tornando o problema ainda mais difícil de enfrentar. Apesar das iniciativas de conscientização e da disponibilidade de serviços de apoio, o estigma em torno do jogo problemático permanece forte. Segundo um estudo recente da AskGamblers, realizado antes da Safer Gambling Week 2025, muitos apostadores evitam falar sobre seus hábitos por medo de julgamento. O evento, realizado no Reino Unido entre 17 e 23 de novembro, estimulou conversas abertas sobre jogo mais seguro, mas os dados mostram que grande parte das pessoas ainda reluta em abordar o tema — reforçando a necessidade de diálogos mais francos para reduzir o estigma e apoiar quem enfrenta dificuldades.

Apostadores britânicos admitem minimizar seu comportamento de jogo

Quase metade dos jogadores no Reino Unido reconhece que costuma minimizar suas apostas. O dado mostra que, embora o jogo faça parte da rotina de muitas pessoas, existe uma tendência clara de esconder o hábito. A maior parte desses apostadores não se cala por achar que jogar é errado, mas por receio da reação dos outros. Esse silêncio prolongado torna ainda mais difícil pedir ajuda. Quando os hábitos são ocultados, sentimentos de estresse, ansiedade e vergonha se acumulam. E, quando as pessoas não se sentem à vontade para falar abertamente, os problemas evoluem sem controle.

Buscando ajuda: um tabu persistente

Um em cada três apostadores britânicos afirmou preferir perder dinheiro a pedir ajuda — um indicativo claro de como buscar apoio ainda é visto como algo difícil. O estudo revela que 32% dos entrevistados se sentem desconfortáveis ao procurar orientação sobre apostas, mostrando como até mesmo iniciar uma conversa pode ser complicado. Além disso, 10% admitem sentir vergonha ao pedir conselhos, o que pode levar a decisões arriscadas tomadas por conta própria, sem informações adequadas.

Reconhecer perdas também é um desafio. Para muitos, falar sobre prejuízos no jogo gera constrangimento. Quase metade dos participantes do estudo disse que só procuraria ajuda após acumular dívidas, o que indica que o suporte só é buscado quando o problema já está avançado. Outros 24% afirmaram considerar ajuda profissional depois de perder £100 em uma única semana — evidenciando como o estresse financeiro pode se instalar rapidamente.

Por que as pessoas escondem os danos causados pelo jogo? Especialista explica

Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Monica Shafaq — ex-CEO da Gordon Moody — compartilhou sua visão sobre por que o estigma em torno da dependência em jogos ainda é tão forte, por que tantas pessoas evitam buscar tratamento e quais medidas o setor pode adotar para proteger jogadores vulneráveis em um ambiente cada vez mais digital. Segundo Shafaq, o vício em jogos ainda é uma das formas de dependência menos compreendidas, principalmente porque seus sinais costumam ser discretos até que a situação chegue ao limite. Diferentemente do abuso de álcool ou drogas, que apresenta sintomas visíveis, os danos causados pelo jogo são muito mais fáceis de esconder.

Segundo Monica Shafaq, “Para muita gente, o jogo ainda é visto como uma escolha pessoal, não como uma questão de saúde pública. Encaram como ‘falta de controle’, e não como um comportamento complexo influenciado por fatores psicológicos, sociais e ambientais. Há também uma grande vergonha associada às perdas financeiras. Enquanto a sociedade continuar tratando o vício em jogos como falha moral, o estigma seguirá impedindo intervenções precoces.”

Como abordagens comunitárias podem abrir espaço para conversas mais seguras

Comentando o estudo da AskGamblers, Shafaq destaca que as pessoas precisam de ambientes emocionalmente seguros muito antes de chegarem a um tratamento formal. Estruturas comunitárias são fundamentais para incentivar conversas desde cedo. Ela ressalta que iniciativas comunitárias podem reduzir os danos ao tornar o apoio mais acessível e próximo da realidade de cada pessoa. Programas conduzidos por pares e grupos de pessoas com experiência vivida ajudam a normalizar o diálogo e a diminuir a sensação de isolamento.

“Nem todo mundo vai procurar um centro de tratamento logo de cara, mas muitos conversariam com um clínico geral, um treinador esportivo, um líder comunitário ou até um gestor no trabalho.”

-Mônica Shafaq, ex-CEO da Gordon Moody

Criar pontos de apoio em locais cotidianos — como empresas, clubes esportivos e centros comunitários — amplia as oportunidades para conversas de prevenção. Campanhas direcionadas ajudam a respeitar diferentes culturas, e histórias reais permitem que mais pessoas identifiquem sinais precocemente.

Shafaq explicou, “As pessoas se abrem mais facilmente com quem já viveu o mesmo caminho. Precisamos reduzir a vergonha. Quando alguém sabe que não será julgado, busca ajuda muito antes.”

Jogo mais seguro depende de ferramentas digitais e dados comportamentais

Com o avanço acelerado do jogo online e da publicidade, Shafaq reforça que reguladores e empresas precisam alinhar esforços para criar um ambiente digital mais seguro e responsável. Ela destaca a importância de usar dados comportamentais para alertas precoces, além de impor limites claros à publicidade.

Shafaq acrescentou: “A publicidade precisa levar a vulnerabilidade em conta. Isso significa reduzir volume, eliminar gatilhos de risco, limitar o uso de celebridades e garantir que as mensagens não confundam entretenimento com ganhos financeiros.”

Shafaq também defende proteções digitais mais robustas, como limites de depósito, períodos de pausa e sistemas de autoexclusão acessíveis e simples de usar. Sobretudo, ela enfatiza que a colaboração entre operadores, reguladores, instituições de apoio e pessoas com experiência vivida é fundamental — o combate ao dano não pode ser tratado como mera burocracia.

Shafaq concluiu: “Os melhores resultados acontecem quando operadores, reguladores, instituições e vozes com experiência real trabalham juntos. Reduzir danos não é checklist — é um esforço integrado. Um sistema seguro precisa proteger por padrão, e não apenas quando o jogador pede ajuda.”

Shafaq conclui que, ao projetar mecanismos de segurança que funcionam automaticamente, o setor pode reduzir de forma significativa danos evitáveis.

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