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Compliance é o motor da inovação no setor de fintech, afirma especialista

Neha Soni
Escrito por Neha Soni
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

A compliance já não é apenas uma barreira regulatória: ela vem redefinindo a inovação no setor de fintech, segundo Lara Barbuto, Diretora de Compliance, Oficial de Conformidade e Responsável por Prevenção à Lavagem de Dinheiro (MLRO) – Malta da OpenPayd. Em entrevista concedida durante a SiGMA Europa Central, Barbuto afirmou que estruturas de compliance dinâmicas e um diálogo ativo com os reguladores estão impulsionando o crescimento das fintechs na Europa e em outros mercados.

“Construa a compliance da mesma forma que constrói o produto”

Ao comentar como as empresas devem encarar a compliance em um cenário regulatório em constante transformação — especialmente com a evolução das regras relacionadas a moedas digitais e stablecoins na Europa — Barbuto foi direta: “É preciso pensar a compliance da mesma forma que se pensa o design de um produto. Ou seja, ela deve ser incorporada desde o início e precisa ser flexível.”

Ela destacou que, embora as normas mudem à medida que os marcos regulatórios evoluem, alguns princípios fundamentais permanecem os mesmos: proteger os clientes, salvaguardar os fundos e conhecer a origem desses recursos. “Se você constrói seus sistemas e políticas com base nesses princípios centrais, fica muito mais fácil se adaptar quando a regulamentação muda. O framework de compliance precisa ser modular, não pode ser estático.”

Essa visão está alinhada a análises regulatórias mais amplas, que defendem a incorporação da compliance já na fase de concepção dos produtos fintech. Um estudo recente, intitulado The Role of Regulatory Sandboxes in FinTech Innovation, reforça a necessidade de modelos de governança adaptáveis e colaborativos.

Pesquisas do setor também mostram que as empresas apontam a clareza regulatória como um dos principais desafios para cumprir novos marcos, como o Regulamento de Mercados de Criptoativos da União Europeia (MiCA), que entrou em vigor para harmonizar as regras de ativos digitais em todo o bloco.

A regulação como catalisadora da inovação

Para Barbuto, uma regulação bem estruturada não sufoca a inovação — pelo contrário, pode liberá-la. “Os reguladores não esperam perfeição. Eles esperam ver progresso e raciocínio claro”, afirmou. “É fundamental conseguir explicar as decisões que estão sendo tomadas e demonstrar que a empresa está evoluindo ao longo do tempo.”

Relatórios recentes do setor de fintech indicam que a compliance e o engajamento regulatório estarão no centro das estratégias das empresas até 2026, especialmente diante de novos sistemas de pagamentos digitais, exigências de prevenção à lavagem de dinheiro (AML) e marcos regulatórios para criptoativos.

Por outro lado, análises iniciais sobre a implementação do MiCA apontam desafios. Segundo a AInvest, os altos custos de compliance e a complexidade do licenciamento levaram algumas startups a encerrar operações ou migrar para outros mercados. O estudo também observa que o mercado de empregos em blockchain na União Europeia encolheu de 100 mil vagas em 2022 para cerca de 10 mil em 2025, levantando preocupações sobre o impacto da regulação mais rígida sobre pequenos inovadores.

Finanças integradas e riscos impulsionados por APIs

Barbuto elogiou a direção regulatória adotada por Malta, embora tenha defendido orientações mais rápidas e maior coordenação. “Malta conseguiu, de fato, encontrar esse equilíbrio. Temos visto expectativas claras por parte do regulador e um diálogo mais aberto com o setor.”

Ela ressaltou ainda a importância da visibilidade e da minimização de dados, além da adaptação dos sistemas de monitoramento para acompanhar transações em tempo real. “Regras estáticas tradicionais simplesmente não se aplicam mais. É preciso monitorar comportamentos, padrões e a velocidade das transações, não apenas limites fixos.”

A integração de APIs e o avanço das finanças integradas (embedded finance) também se refletem nos números do mercado. De acordo com a Research and Markets, o mercado europeu de embedded finance deve crescer a uma taxa anual de 11,1%, alcançando US$ 143,2 milhões até 2025, impulsionado por parcerias entre diferentes setores que dependem fortemente de estruturas sólidas de compliance e gestão de riscos.

Malta como polo favorável à compliance

Barbuto voltou a elogiar o posicionamento regulatório de Malta, destacando que o país conseguiu encontrar “esse equilíbrio” entre inovação e solidez regulatória. Segundo ela, o esforço para alinhar-se aos marcos europeus — como o próprio MiCA — aumentou significativamente a confiança em Malta como jurisdição. “Isso construiu o nível de confiança necessário para que a inovação aconteça de forma segura, em um ambiente previsível.”

Ela acrescentou que alguns aprimoramentos poderiam acelerar a escalabilidade das fintechs sem comprometer os padrões regulatórios. “Talvez um pouco mais de velocidade e coordenação”, disse, citando “prazos de análise mais rápidos” e “orientações mais claras”, especialmente no que diz respeito a stablecoins e requisitos de custódia.

Barbuto também defendeu maior coordenação entre os reguladores, para evitar retrabalho e mensagens contraditórias às empresas. “O caminho é positivo. Não se trata de desacelerar ou reduzir padrões, mas de trazer mais clareza e eficiência.”

Avanços recentes mostram que os padrões de Nível 2 do MiCA estão sendo refinados, incluindo processos específicos de autorização e documentos de perguntas frequentes (FAQs), o que pode facilitar a operacionalização da compliance pelas empresas. Paralelamente, o Reino Unido segue desenvolvendo seus próprios marcos regulatórios, com planos para uma nova regulamentação de criptoativos que busque equilibrar proteção ao consumidor e incentivos à inovação, com implementação prevista até 2027, segundo a Reuters.

Em outra discussão anterior, durante a SiGMA Euro-Med 2025, o palco da AIBC sediou um painel relevante sobre a evolução do banco digital e das fintechs. Os participantes destacaram a importância de simplificar conceitos complexos do setor e comunicar de forma clara os benefícios aos usuários.

Malta há muito tempo ocupa uma posição de destaque na regulamentação de fintechs e ativos virtuais, conciliando inovação com uma supervisão rigorosa. Outro debate abordou como o país vem moldando o futuro das finanças digitais e criando um ambiente favorável para tecnologias emergentes.

Compliance como alavanca estratégica de crescimento

Barbuto também compartilhou sua visão de que a compliance deixou de ser um entrave e passou a atuar como um acelerador de negócios. “A compliance evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, uma boa estrutura de compliance é, de fato, um fator que impulsiona o crescimento.”

Segundo ela, frameworks sólidos ajudam as empresas a reduzir o tempo de due diligence junto a bancos e parceiros. “Isso resulta em processos de análise muito mais rápidos com instituições financeiras ou outros provedores. A compliance é a base da credibilidade.”

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