A Fundação Sul-Africana de Jogo Responsável (South African Responsible Gambling Foundation – SARGF) afirma que o país entra em um período crítico no combate aos danos relacionados ao jogo, em meio ao forte crescimento das apostas online e ao aumento no número de jovens em busca de ajuda.
Em entrevista à SiGMA News, a diretora executiva Sibongile Simelane-Quntana detalhou a dimensão do desafio e as pressões enfrentadas pela organização, responsável pela execução do Programa Nacional de Jogo Responsável (National Responsible Gambling Programme – NRGP).
Demanda em expansão e recursos limitados
Simelane-Quntana explica que a Fundação foi criada como uma entidade sem fins lucrativos, constituída de acordo com a Companies Act, e financiada por contribuições de cassinos, operadores de bingo, casas de apostas e outros segmentos da indústria de jogos, limitadas a 0,1% da Receita Bruta de Jogos (Gross Gambling Revenue – GGR) do setor.
Esse teto financeiro, no entanto, está cada vez mais pressionado. Embora a arrecadação tenha crescido, ela ainda está muito aquém do que deveria ser repassado. Pela primeira vez na história da Fundação, a receita do NRGP ultrapassou ZAR 40 milhões (US$ 2,35 milhões), mas os dados oficiais de arrecadação nacional indicam que o programa deveria receber um valor significativamente maior. Segundo Simelane-Quntana, “a Fundação conseguiu arrecadar apenas cerca de ZAR 41 milhões (US$ 2,38 milhões), o que representa um déficit de ZAR 18,3 milhões (US$ 1,08 milhão)”.
Para ela, essa diferença expõe problemas estruturais mais profundos: “Alguns operadores e reguladores não estão comprometidos com as contribuições ao NRGP e, ao mesmo tempo, se beneficiam comercialmente do uso da linha telefônica gratuita de aconselhamento e do slogan do Programa Nacional de Jogo Responsável para fins de conformidade publicitária.”
Apesar das restrições orçamentárias, a SARGF segue como o principal provedor de tratamento gratuito para transtornos relacionados ao jogo no país. Ao longo de mais de duas décadas, a Fundação já apoiou mais de 24 mil pessoas. Ainda assim, o acompanhamento de longo prazo dos processos de recuperação permanece um desafio. Como explica Simelane-Quntana, “atualmente não existe uma matriz padronizada para medir a recuperação de longo prazo, devido à natureza complexa e multifacetada dos desafios enfrentados por quem busca ajuda”.
Diante disso, a organização recorre a indicadores indiretos, como o aumento no volume de ligações para a central de atendimento após ações de conscientização. O engajamento do público, segundo ela, costuma gerar “um aumento perceptível no número de pessoas que entram em contato com a Fundação em busca de apoio”, o que ajuda a demonstrar o impacto das iniciativas de prevenção.
Alcance em comunidades remotas e grupos de risco
A Fundação atua em parceria com as nove autoridades provinciais de licenciamento da África do Sul para garantir acesso aos serviços para além dos grandes centros urbanos. Simelane-Quntana afirma que o NRGP conta com “mais de 80 profissionais de tratamento (psicólogos, assistentes sociais e conselheiros registrados) distribuídos pelas nove províncias, assegurando acesso a aconselhamento e tratamento”.
Uma parte significativa do foco recente da Fundação está voltada para crianças, adolescentes e universitários, grupos cada vez mais expostos às apostas digitais. Embora o jogo para menores seja ilegal, isso, como ela ressalta, “não protege totalmente os jovens e crianças em idade escolar dos impactos negativos do jogo desordenado e irresponsável”.
O programa Taking Risks Wisely busca fornecer informação e suporte a estudantes do ensino básico, incentivando-os a se tornarem embaixadores entre os próprios colegas, promovendo escolhas conscientes, evitando atividades ilegais e aprendendo a “assumir riscos de forma responsável”. Já menores afetados por jogos ilegais podem acessar atendimento psicológico por meio do Minor Intervention Programme.
As universidades também estão entre as prioridades. Com muitos estudantes já legalmente aptos a apostar e fortemente atraídos pelas apostas esportivas online, a Fundação planeja roadshows que incluem “treinamento em jogo responsável para assistentes sociais e profissionais da saúde, com foco em encaminhamentos cruzados”, seguidos por ativações nos campi e “sessões interativas de discussão no formato Bet Chats”.
Os idosos também se mostram cada vez mais vulneráveis. Pesquisas citadas pela Fundação apontam uma prevalência de 76,1% de participação em jogos de azar entre beneficiários idosos de programas sociais. Diante disso, assistentes sociais conduzem sessões sobre “planejamento financeiro, dependência e jogo responsável”, conectando essas pessoas a serviços de apoio quando necessário.
Avanço das apostas digitais
O crescimento do jogo online transformou o cenário de apostas na África do Sul e aumentou a pressão sobre as estratégias de prevenção. A Fundação reconhece que as plataformas digitais trazem “desafios específicos”, sobretudo para “universitários e jovens adultos familiarizados com tecnologia”.
Embora esteja explorando novas ferramentas digitais, como sistemas de autoavaliação e aconselhamento online, a SARGF alerta que operadores com maior poder financeiro dominam o ambiente digital. Segundo Simelane-Quntana, mensagens de jogo responsável costumam ser empurradas para “áreas menos visíveis das plataformas ou das comunicações”.
Ela destaca que a Fundação não consegue competir, em escala e velocidade, com campanhas comerciais: “a natureza dinâmica e em constante evolução do jogo digital exige que as intervenções de jogo responsável sejam ágeis e tecnologicamente avançadas para acompanhar esse ritmo”. Recursos financeiros e capacidade técnica limitados, acrescenta, “podem restringir o alcance e o impacto das intervenções digitais”.
Por isso, a Fundação defende exigências regulatórias mais rígidas, que obriguem os operadores a exibir de forma clara e destacada ferramentas e alertas de jogo responsável.
Visão de longo prazo
Nos próximos anos, a SARGF pretende intensificar sua atuação nas plataformas digitais, ao mesmo tempo em que fortalece a cooperação com reguladores e parceiros regionais. Segundo Simelane-Quntana, as prioridades incluem “a expansão e modernização das campanhas digitais de conscientização e das ferramentas de apoio” e o reforço das ações voltadas à proteção de “grupos vulneráveis, como jovens adultos e universitários”.
A Fundação também participa de uma comunidade de prática com organizações que oferecem aconselhamento e tratamento para problemas relacionados ao jogo na diáspora africana, utilizando redes transfronteiriças para compartilhar boas práticas.
Apesar da magnitude do desafio, a missão central da organização permanece inalterada. Seu propósito fundamental, conforme definido por Simelane-Quntana, é “promover práticas de jogo responsável e minimizar os potenciais efeitos nocivos do jogo desordenado”, com a visão de construir um ambiente que “responda às tendências do jogo e gerencie de forma eficaz os impactos do jogo problemático na África do Sul”.
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