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#AxeTheRacingTax: as corridas de cavalos enfrentam um impasse orçamentário

David Gravel
Escrito por David Gravel
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

As corridas de cavalos britânicas estão apostando todas as fichas no Orçamento de 26 de novembro. O Tesouro planeja aumentar o imposto sobre apostas nas corridas de 15% para 21%, alinhando-o à taxa já aplicada aos cassinos online. A proposta faz parte da revisão dos impostos sobre jogos remotos, programada para abril de 2025, e já causou inquietação em um setor que enfrenta verificações de acessibilidade financeira, o crescimento do setor ilegal e o lançamento da campanha #AxeTheRacingTax. A chanceler Rachel Reeves lida com um déficit fiscal estimado entre £20 bilhões e £40 bilhões.

Diante da necessidade de reduzir esse déficit, o governo exigiu cortes e ajustes de todos os ministérios. Em meio a esse cenário, a British Horseracing Authority (BHA) lançou sua campanha mais politizada em décadas. Sob o lema #AxeTheRacingTax, a entidade alerta que um aumento uniforme poderia desestabilizar as economias rurais. De acordo com previsões da BHA, 2.752 empregos seriam perdidos no primeiro ano caso a proposta avance.

O movimento ganhou força em 10 de setembro, durante o “Dia Cancelado das Corridas”, uma paralisação nacional simbólica, mas calculada. Todo o setor interrompeu suas atividades — e usou o silêncio para se fazer ouvir. Em poucas horas, parlamentares começaram a receber ligações de treinadores, donos de hipódromos e associações regionais. Grupos de lobby prepararam manchetes para chegar diretamente às caixas de entrada do Tesouro. O que começou como um protesto se transformou em moeda política. A BHA demonstrou uma velha verdade britânica: em um país onde governos buscam vitórias fáceis, ameaçar estragar um bom dia de corridas ainda é uma forma eficaz de chamar a atenção de Westminster.

Dentro do plano do Tesouro que incendiou o setor

Para o Tesouro, o aumento do imposto sobre apostas é uma questão aritmética simples — igualar as corridas ao mesmo patamar dos cassinos online. Os técnicos chamam a medida de “harmonização”, ou seja, um imposto único para todas as modalidades de jogo remoto. Mas, para a British Horseracing Authority, a proposta que impulsionou a campanha #AxeTheRacingTax soa como uma granada lançada em um ecossistema já frágil.

O setor enfrenta simultaneamente três ameaças: os controles de acessibilidade financeira, a reforma não concluída da taxa de apostas (betting levy) e agora a possibilidade de maiores tributos. Segundo uma projeção encomendada pela BHA, a mudança poderia custar £330 milhões ao setor em cinco anos, além de gerar a perda de 2.752 empregos apenas no primeiro ano.

Essas perdas afetariam principalmente as regiões rurais, onde treinadores, tratadores, fornecedores de ração e veterinários dependem diretamente das corridas. Enquanto ministros enxergam “simetria fiscal”, o setor vê destruição econômica. O plano inicial previa a entrada em vigor apenas em outubro de 2027, mas o trabalho técnico já acelerou.

O verdadeiro teste do Orçamento está entre as planilhas e os estábulos: até que ponto o governo pode pressionar antes que o esporte que deu origem às apostas comece a perder empregos, esperança e tradição? Uma análise recente da SiGMA News levantou a questão: trata-se de um imposto sobre corridas ou de uma ruína rural? Seja qual for a resposta, o governo enfrenta seu momento de verdade.

Como a campanha #AxeTheRacingTax mudou o debate

A campanha da BHA foi construída em torno da ideia de uma “ameaça tripla” — verificações mais rígidas de acessibilidade, uma taxa de apostas indefinida e o risco de aumento de impostos. Juntas, essas pressões colocam a indústria em combate em três frentes simultâneas.

A #AxeTheRacingTax também mudou o tom político. Hoje, o movimento une parlamentares de diferentes partidos. O apoio às corridas ultrapassou divisões partidárias, reunindo 101 deputados trabalhistas, o ex-primeiro-ministro Gordon Brown e figuras de destaque dos Conservadores, Liberal-Democratas e do Reform UK.

Os Liberal-Democratas adotaram uma política de aumentar impostos sobre produtos de jogos online, mas se opõem a aumentos sobre apostas esportivas, argumentando que as corridas sustentam empregos nas zonas rurais. O ministro-sombra conservador para Jogos, Louie French, endossou publicamente a campanha durante o congresso do partido — e repetiu a hashtag no palco principal. Até Nigel Farage demonstrou apoio durante o evento de Goodwood, no início do ano.

O avanço da tributação baseada em impacto

O ex-premiê Gordon Brown e o Institute for Public Policy Research (IPPR) apoiam aumentos nos impostos sobre o jogo, argumentando que a receita extra deve financiar programas de combate à pobreza infantil. Ambos também defendem que as corridas merecem tratamento diferenciado, por gerarem empregos e manterem viva uma parte da cultura britânica.

Outros institutos propõem abordagens próprias. O Social Market Foundation (SMF) sugere uma divisão baseada em impacto — 5% de imposto para apostas em corridas e 50% para slots online. Durante o mesmo painel do SMF, a ministra de Jogos, Baronesa Twycross, reconheceu que o tema é “complexo” e afirmou que o Tesouro precisaria encontrar “um nível seguro” de tributação, para evitar o fortalecimento do setor ilegal — uma admissão rara, que ecoou o temor da própria indústria.

Enquanto o IPPR enxerga a reforma como um mecanismo de financiamento social, o Demos destaca a importância de empregos rurais estáveis. Juntas, essas visões indicam um consenso improvável: uma taxa única não serve para todos os tipos de jogo.

Durante meses de conferências partidárias e intensa cobertura midiática, a BHA consolidou esse argumento. A campanha transformou um debate técnico sobre impostos em uma questão política nacional — e agora, o Tesouro não pode mais ignorar a pressão.

Como as corridas transformaram o protesto em pressão política

Após o “Dia Cancelado das Corridas”, a campanha deixou de ser um protesto para se tornar uma operação de lobby estratégico. A British Horseracing Authority (BHA) iniciou uma série de reuniões com parlamentares e altos funcionários do governo, utilizando o Grupo Parlamentar Misto de Corridas e Criação de Cavalos (APPG) para construir apoio político. Paralelamente, a BHA enviou relatórios direcionados ao Tesouro e ao Departamento de Cultura, Mídia e Esporte (DCMS).

A entidade também deu início a uma discreta ofensiva midiática. Matérias no Financial Times, The Times e na Reuters foram estrategicamente publicadas para atingir o público de Westminster — exatamente onde a BHA queria ecoar sua mensagem. Ao mesmo tempo, uma campanha digital colocou anúncios e publicações nas plataformas online mais acessadas por parlamentares e assessores.

Sob a bandeira #AxeTheRacingTax, a BHA marcou presença nas conferências dos quatro principais partidos políticos do Reino Unido. Painéis, recepções e jantares privados colocaram executivos e treinadores frente a frente com parlamentares para discutir como o aumento de impostos poderia afetar empregos locais. A mensagem era direta: equilibrar as contas em Londres pode desestabilizar a vida de milhares de pessoas nas áreas rurais.

A estratégia ganhou força. No início do outono, a campanha conseguiu forçar o governo a lidar de forma mais séria com as preocupações específicas do setor. O movimento evoluiu do protesto à influência: emoção virou acesso, e o acesso se transformou em pressão.

Divisão no setor: quem deve pagar mais?

A proposta de “harmonização tributária” deveria simplificar o sistema, mas acabou revelando divisões profundas dentro da própria indústria de jogos e apostas.

As entidades ligadas às corridas, lideradas pela BHA e pela Arena Racing Company, defendem uma exceção que mantenha a taxa sobre apostas em corridas de cavalos em 15%. O argumento é que o vínculo entre as corridas e as apostas as diferencia de produtos de maior risco, como os jogos de cassino online. Para os apoiadores da campanha #AxeTheRacingTax, tratar as corridas da mesma forma que os cassinos ignora tanto sua importância econômica para as comunidades rurais quanto seu papel cultural.

Martin Cruddace, CEO da Arena Racing Company, afirmou que a estreita relação entre as corridas e as apostas impede que o setor seja tratado como o de jogos de cassino. A BHA enquadra o tema #AxeTheRacingTax como uma questão política, econômica e cultural — um triplo risco que, segundo a entidade, o Tesouro precisa considerar com cautela.

Mas nem todos concordam. A CEO do Betting and Gaming Council, Grainne Hurst, declarou que “criar exceções para um único esporte é um erro” e acrescentou que “qualquer aumento adicional de impostos sobre a indústria regulamentada de apostas e jogos afetaria não apenas as corridas, mas também outros esportes que dependem do financiamento de operadores.”

Grandes empresas compartilham dessa preocupação. Peter Jackson, CEO da Flutter Entertainment, afirmou que “taxas muito altas reduzem a concorrência, enfraquecem a oferta ao consumidor e podem até diminuir a arrecadação tributária.” Já Rob Wood, CFO da Entain, alertou que “aumentos excessivos acabam sendo contraproducentes”, citando o caso da Holanda, onde “mais da metade do mercado passou para a ilegalidade.”

A divisão agora é evidente: o setor das corridas enxerga a proteção fiscal como questão de sobrevivência, enquanto os grandes operadores consideram inviável criar exceções em um modelo de negócios totalmente integrado.

O que o Orçamento de Novembro pode representar para o futuro das apostas

A ministra das Finanças, Rachel Reeves, enfrenta um verdadeiro teste econômico em 26 de novembro. Em um recente fórum regional de investimentos realizado em Birmingham, Reeves reconheceu que o Brexit e anos de austeridade sob governos conservadores prejudicaram a economia britânica muito mais do que se imaginava.

O Office for Budget Responsibility (OBR) calculou que o Brexit, sozinho, reduzirá a produtividade de longo prazo em 4% em comparação com a permanência no bloco europeu. O endividamento público segue em níveis recordes — os mais altos fora do período da pandemia — e as projeções de crescimento continuam em queda. Reeves se prepara para uma nova revisão negativa do OBR, que pode revelar um déficit fiscal de até £30 bilhões.

Reeves advertiu que “as decisões que estão por vir serão ainda mais difíceis devido às pressões globais e aos danos de longo prazo causados à nossa economia — que agora se tornam cada vez mais evidentes.”

A elevação de impostos é praticamente inevitável, embora a ministra tenha se comprometido publicamente a proteger os trabalhadores de aumentos no Seguro Nacional, imposto de renda e IVA.

O dilema do Tesouro sobre os impostos do setor de jogos

Diante de um cenário fiscal restrito e de escolhas difíceis, a discussão sobre a taxação do jogo se junta a outros temas espinhosos — como herança, ganhos de capital e reforma imobiliária — todos competindo por espaço em um orçamento em que cada setor busca preservar seus próprios privilégios. Para as corridas, o momento não poderia ser mais delicado.

Aumentar a alíquota de forma generalizada pode empurrar os apostadores para o setor ilegal. Manter uma exceção para as corridas, por outro lado, abriria precedente para que outros segmentos exigissem o mesmo tratamento. Seja qual for a decisão, este Orçamento definirá até onde o Tesouro está disposto a abrir mão de controle em troca de arrecadação.

Para o setor, trata-se de um sinal de alerta. A política tributária se tornou não apenas uma questão de números, mas também de influência. A campanha #AxeTheRacingTax mostrou como um lobby bem articulado pode transformar um debate técnico em pressão política real. Se essa pressão será suficiente para mudar a política do Tesouro, saberemos em 26 de novembro. As próximas semanas mostrarão se essa influência resistirá quando o Tesouro começar a fazer as contas.

Se o setor conseguir a exceção tributária que busca, isso criará um precedente para um modelo de tributação baseada em risco, capaz de redefinir como cada vertical do jogo argumenta sua posição. Se perder, a mensagem será igualmente clara: mesmo uma frente unida e bem financiada pode ter dificuldades para alterar a política fiscal de um governo sob forte pressão orçamentária.

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