A proposta de um novo imposto sobre corridas no Reino Unido desencadeou uma resposta urgente da indústria, com líderes das corridas de cavalos alertando que a medida pode custar ao esporte até £160 milhões por ano. Com a consulta pública do Tesouro prestes a ser encerrada na segunda-feira, 21 de julho, a campanha “#AxeTheRacingTax” (Cancele o Imposto sobre Corridas) entrou em ritmo acelerado. Apoiada por treinadores renomados, operadores, parlamentares e milhares de fãs das corridas, a iniciativa aponta a proposta como uma ameaça existencial ao futuro da modalidade.
O que é a proposta de imposto sobre corridas no Reino Unido – e por que agora?
Atualmente, apostas em esportes como corridas de cavalos são tributadas a uma alíquota de 15%, enquanto jogos de azar como caça-níqueis online e roleta são taxados a 21%. Operadoras de apostas no Reino Unido pagam impostos com base na receita bruta do jogo – ou seja, o valor apostado menos os prêmios pagos. Agora, o governo avalia adotar uma taxa única para todo o setor, agrupando apostas em corridas de cavalos com jogos de cassino online, apesar das diferenças fundamentais entre eles.
A proposta pode eliminar a distinção entre apostas esportivas baseadas em habilidade e jogos de alto risco de estilo cassino. Ela faz parte de uma revisão mais ampla do sistema tributário das apostas no Reino Unido, em um momento em que as corridas de cavalos britânicas já enfrentam sérias dificuldades financeiras.
O volume de apostas online em corridas caiu £1,6 bilhão (€1,87 bilhão) em dois anos, devido em parte aos controles de acessibilidade e restrições impostas às operadoras pelas regras de proteção ao jogador da Comissão de Apostas. Esses desafios se somam a alertas anteriores de colapso por parte de figuras-chave da indústria, desde que o governo começou a considerar a reforma.
Os controles de acessibilidade, introduzidos pela Comissão de Apostas como parte das regras de jogo mais seguro, obrigam operadoras a revisar a situação financeira de um cliente após determinados limites. Isso pode incluir verificação de renda, consultas de crédito ou limites em depósitos e valores de apostas. Para os defensores da medida, trata-se de uma proteção essencial. Já os críticos dizem que os controles são excessivos, aplicados de forma desigual e inadequados para formatos estratégicos como as apostas em corridas.
A Autoridade Britânica das Corridas de Cavalos (BHA) alerta que a proposta tributária pode agravar ainda mais a pressão financeira em um momento em que a reforma do Levy – a contribuição obrigatória das casas de apostas ao setor – permanece travada. A Taxa de Apostas em Corridas de Cavalos (ou Horserace Betting Levy, em inglês) é um encargo legal que retorna parte dos lucros das apostas em corridas ao próprio esporte. Apesar do consenso de que o modelo precisa ser revisto, sem um acordo entre o setor, as casas de apostas e o Tesouro, não há avanço. Críticos classificam o sistema atual como ultrapassado e vulnerável a choques, e departamentos do governo resistem a mudanças em modelos com fundos carimbados.
Linha do tempo: como chegamos até aqui?
A proposta de imposto sobre corridas é mais um capítulo na reformulação do setor de apostas no Reino Unido. Entenda o contexto:
- Abril de 2023 – Após anos de adiamento, o governo publica o Livro Branco da Lei de Apostas, com promessas de modernização para a era digital.
- Verão de 2023–2024 – Início da implementação das reformas, com introdução de verificações financeiras e propostas para criação de um novo Ombudsman de Apostas.
- Outono de 2024 – Setor alerta para o atraso na reforma da Taxa de Apostas em Corrida de Cavalos, apesar das reiteradas promessas de revisão após o Livro Branco.
- Março de 2025 – O Tesouro abre discretamente consulta sobre a harmonização tributária, sugerindo alinhar apostas esportivas à taxação de jogos de cassino.
- Julho de 2025 – Campanha #AxeTheRacingTax é lançada antes do fim da consulta, em 21 de julho, com alertas sobre o impacto financeiro severo para o setor.
Projeções de impacto financeiro para as corridas britânicas
Uma análise financeira encomendada pela BHA mostra o tamanho do prejuízo. Caso a alíquota sobre apostas em corridas suba para 21%, o setor pode perder £66 milhões (€77 milhões) por ano, considerando receitas do Levy, direitos de mídia e patrocínios. Se a taxa atingir os 40% — temor de alguns envolvidos —, a perda pode chegar a £160 milhões (€187 milhões) anuais.
“Seria algo catastrófico para o esporte”, afirmou Brant Dunshea, CEO interino da BHA, em entrevista ao programa Luck on Sunday. “Temos grande apoio do Grupo Parlamentar Interpartidário. Há um grupo muito engajado que já está levando o tema ao Parlamento, então nosso foco agora é convencer os políticos de que essa proposta é um erro.”
Ele completou: “Na nossa visão, é fundamental distinguir os dois tipos de produto. As corridas geram impacto positivo para a sociedade – são 85 mil empregos e mais de £300 milhões arrecadados para os cofres públicos. Fazemos parte da cultura e do patrimônio britânico.”O Fórum de Apostadores de Corridas (HBF) também se manifestou. O presidente Sean Trivass afirmou que muitos membros se sentiram “ofendidos ao verem as apostas no esporte sendo colocadas no mesmo saco de cassinos e caça-níqueis”.
“Façam barulho”: mobilização popular para proteger as corridas
A BHA lançou uma campanha direta ao público com o lema #AxeTheRacingTax, incentivando fãs e agentes do setor a escreverem para seus parlamentares. Um modelo de carta passo a passo está disponível no site da BHA, facilitando o envio de mensagens diretamente ao governo.
“Encorajamos todos que fazem parte do esporte a se posicionarem”, disse Brant Dunshea. “Escrevam para seus representantes, façam barulho, expressem suas preocupações.”
Diversos hipódromos pelo Reino Unido já aderiram. Em York, a campanha apareceu nos telões e também foi impressa nos programas das corridas do fim de semana. O CEO William Derby destacou: “As corridas são uma grande fonte de empregos em Yorkshire. Elas são essenciais para a economia, a sociedade e a cultura. O governo precisa valorizar e apoiar essa tradição.”
James Hutchinson, CEO do hipódromo de Ripon, acrescentou: “Do ponto de vista individual, é difícil prever como o imposto nos afetaria diretamente. Mas em escala maior, o impacto seria devastador. Não há medidas que compensem a perda de uma receita desse porte.”
A mobilização já conta com apoio de nomes influentes em todo o ecossistema das corridas:
• Martin Cruddace (Arena Racing Company)
• Nick Mills (Racecourse Media Group)
• Trainers John Gosden and Andrew Balding
• Philip Newton (Thoroughbred Breeders’ Association Chair)
• O apostador profissional Patrick Veitch
Harmonização: justiça ou erro?
Do ponto de vista do governo, a proposta do Tesouro tem como objetivo simplificar: unificar as alíquotas de imposto para todos os segmentos de apostas e criar paridade. Mas críticos afirmam que essa lógica ignora as diferenças fundamentais entre os produtos.
O documento de consulta do Tesouro afirma que a mudança visa modernizar o sistema tributário das apostas, eliminar distorções entre diferentes categorias e garantir “tratamento justo e consistente” em todo o setor. Embora nenhuma decisão final tenha sido tomada, a proposta faz parte de uma estratégia fiscal mais ampla para atualizar o código tributário e melhorar a eficiência administrativa.
Apostar em corridas de cavalos exige habilidade, conhecimento, análise e tempo. Já jogos de cassino online, como roleta ou caça-níqueis, são aleatórios, de alta velocidade e alto risco – uma distinção reconhecida por pesquisas e instituições que trabalham com prevenção e tratamento do jogo problemático. Defensores da campanha alertam que tratar esses dois universos como se fossem iguais pode prejudicar os consumidores, à medida que as operadoras passem a priorizar produtos com giro mais rápido e margens de lucro maiores.
Alguns analistas tributários independentes argumentam que alíquotas específicas por setor podem distorcer a política fiscal e criar complexidade desnecessária. Mas nem toda aposta é igual. Quando há diferenças de controle do jogador, nível de risco e exigência de habilidade, a forma de tributar também deveria ser diferente. Em países como a Irlanda, as apostas em corridas são tributadas com base no volume apostado, enquanto na Austrália o modelo de tributação por ponto de consumo ainda distingue os tipos de produto. O Reino Unido, por sua vez, sempre permitiu que as corridas de cavalos mantivessem um modelo específico, considerando sua importância histórica e econômica.
Campanhas alertam ainda que a mudança pode reduzir a arrecadação do governo. À medida que apostadores migram para sites não regulados ou deixam de apostar, tanto o Tesouro quanto o esporte podem sair perdendo. Como já noticiado pela SiGMA News, alguns parlamentares alertaram que a proposta pode incentivar o jogo ilegal, enfraquecendo a proteção ao consumidor e a arrecadação pública.
Por que isso importa para o iGaming em geral
Apesar de a proposta ser voltada para as corridas britânicas, suas repercussões vão além das pistas. Ela levanta questões sobre como os produtos de apostas são classificados – e quais proteções ou privilégios essas classificações garantem. Se a lógica da harmonização for aceita neste caso, ela pode abrir caminho para unificar a tributação em outros segmentos da indústria.
Operadoras que atuam com eSports, fantasy sports diários, jogos de habilidade ou formatos emergentes como microapostas podem, no futuro, enfrentar a mesma pressão regulatória.
Para empresas de iGaming e provedores de plataforma, o recado é claro: decisões políticas sobre classificação de produto e taxação precisam ser acompanhadas de perto – não apenas aceitas depois que a regulamentação já está em vigor.
E agora? Como o setor pode reagir
A consulta pública sobre a reforma tributária das apostas termina em 21 de julho, o que deixa pouco tempo para reagir. De apostadores a treinadores, de sindicatos a executivos, este é um momento em que o silêncio pode custar muito caro ao esporte. Ainda é possível se posicionar contra a proposta antes do prazo, mas o movimento precisa ganhar força com urgência.
O site da campanha da BHA permite que apoiadores enviem mensagens aos parlamentares com facilidade. A ação é simples; o impacto depende de quantas pessoas falarem – e da clareza com que forem ouvidas.
“A mensagem precisa vir de todas as vozes possíveis”, disse James Hutchinson, do hipódromo de Ripon. “É a única forma de causar impacto real.”
Este momento chega em meio a um cenário já delicado. Os controles de acessibilidade e a estagnação da reforma do Levy já afetaram as margens das operadoras e os hábitos de apostas. Embora as corridas continuem gerando valor social, cultural e econômico em todo o Reino Unido, a nova proposta ameaça cortar uma das poucas fontes de receita estáveis do setor.
Mesmo ações recentes de boa vontade – como as casas de apostas doando lucros de dias de corrida para instituições de caridade – podem ser revertidas, caso o aumento de impostos leve a indústria a priorizar formas de aposta mais rápidas e arriscadas, apenas para se manter viva.
A pergunta agora é direta: apostas em corridas devem ser tratadas como uma rodada de roleta, ou reconhecidas como uma prática baseada em habilidade e enraizada na comunidade? Porque se essa proposta avançar sem resistência, não será apenas o setor de corridas que sairá manco – todo o mapa da tributação de jogos no Reino Unido pode ser redesenhado.
Embora o foco atual seja barrar a proposta de unificação fiscal, há quem defenda que o setor também precisa repensar seu modelo de financiamento. Algumas sugestões incluem ampliar o Levy para apostas feitas em mercados internacionais, investir em direitos digitais e licenciamento global de conteúdo, ou desenvolver novas parcerias comerciais que reduzam a dependência exclusiva das apostas.
Seja qual for o caminho, o desafio permanece: criar um modelo de receita sustentável, que preserve o legado das corridas sem depender inteiramente das apostas.




