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Do dial-up à IA: a evolução do iGaming com Moshe Adir

Neha Soni
Escrito por Neha Soni
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

A indústria de iGaming passou por uma das transformações digitais mais dramáticas do entretenimento moderno. Do era de conexões discadas e CD-ROMs enviados pelo correio ao atual ecossistema mobile-first e personalizado por inteligência artificial, o setor se reinventou completamente. O que começou como um experimento de nicho em meados da década de 1990 transformou-se em um mercado bilionário, impulsionado por tecnologia avançada, inteligência de dados e mudanças no comportamento dos consumidores. Cada salto tecnológico — do desktop ao mobile e, agora, à IA — redefiniu como as pessoas jogam, interagem e se conectam com as marcas de jogos.

Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Moshe Adir, fundador da Vegas Kings, revisita 30 anos de transformação digital, discutindo os momentos decisivos que moldaram o jogo online, como o mobile revolucionou o comportamento dos jogadores e por que a IA pode levar a indústria a repensar o jogo responsável.

SiGMA News: Você viu o iGaming evoluir do dial-up à IA. Quais foram os três momentos mais significativos nessa trajetória digital?

Moshe Adir, fundador da Vegas Kings: Olhando para esses 30 anos, três momentos se destacam como verdadeiros game-changers:

O primeiro momento foi entre 1994 e 1996, quando percebemos que o modelo de CD-ROM realmente funcionava. Lembro-me de ver a Microgaming enviando aqueles discos brilhantes para a casa dos jogadores, porque a conexão discada não suportava os downloads. Parece absurdo hoje, mas aquilo provou que as pessoas queriam jogar online. Foi ali que tudo mudou — não era mais apenas um experimento tecnológico.

O segundo momento foi o colapso provocado pela Lei UIGEA (Unlawful Internet Gambling Enforcement Act) de 2006. Vi clientes desaparecerem da noite para o dia quando o mercado dos EUA se fechou. Mas há algo que muita gente ignora: isso obrigou o setor a amadurecer. Deixamos de ser aventureiros e passamos a ser profissionais. A regulamentação não foi nossa inimiga; foi nossa salvação. Os operadores que resistiram àquele período construíram as bases do que temos hoje.

O terceiro foi a ascensão do mobile, entre 2010 e 2012. Não apenas porque todos passaram a ter smartphones, mas porque isso mudou a forma de jogar. No desktop, o jogo era um evento: você sentava, fazia login e jogava por horas. O mobile transformou isso em algo contínuo — alguns giros enquanto espera o café, uma aposta rápida no almoço. O jogo deixou de ser uma atividade para se tornar parte do ambiente.

SiGMA News: Como a transição do desktop para o mobile redefiniu o engajamento e a retenção de usuários?

Adir: “O mobile não só reduziu nossos designs, ele reestruturou completamente a psicologia do jogador. No desktop, otimizávamos para sessões. No mobile, otimizamos para momentos.”

Ele relembra: “Em 2012, ao redesenhar um grande site de cassino, o cliente perguntava: ‘Onde está o lobby?’ Mas jogadores mobile não navegam por lobbies como no Caesar’s Palace. Eles querem acessar sua slot favorita em dois toques, ponto final.”

A retenção mudou completamente. Jogadores de desktop eram leais ao cassino. Jogadores mobile são leais às experiências. Se o app demora mais de três segundos para abrir ou exige cinco toques para apostar, eles vão embora. Aprendemos a desenhar para atenção medida em batimentos cardíacos, não minutos.

As notificações push se tornaram a arma secreta — mas só quando usadas com moderação. Operadores que enviavam spam diário perdiam jogadores. Os que enviavam alertas inteligentes e contextuais, como “Sua mesa favorita está quente!”, construíam engajamento real.

SiGMA News: Onde você vê a IA e o machine learning impactando mais o comportamento dos jogadores e o design das plataformas?

Adir: “A IA já está presente. Muitos operadores nem percebem o quão profundamente ela está integrada. Os motores de personalização que decidem quais jogos mostrar, os sistemas de gerenciamento de risco que sinalizam padrões de aposta incomuns, os bots de atendimento que respondem a 70% dos tickets de suporte, tudo isso é IA.”

O aspecto mais interessante, porém, é a previsão comportamental. “Estamos passando de ‘este jogador gosta de slots’ para ‘este jogador provavelmente vai depositar €50 na quinta à noite se mostrarmos um bônus de 20% junto com a notificação da manhã’.”

Isso muda completamente o design. Em vez de criar uma experiência única para todos, construímos frameworks que se adaptam em tempo real: cores que mudam com sequências de vitórias ou derrotas, sugestões de jogos que evoluem com o humor, e até elementos da interface que aparecem ou desaparecem conforme indicadores de estresse do jogador.

O lado assustador? A IA está ficando tão boa em prever comportamentos que talvez precisemos de novas ferramentas de jogo responsável. Quando a máquina sabe que você vai tentar recuperar perdas antes mesmo de você fazer isso, qual é nossa obrigação ética?

O futuro do iGaming

SiGMA News: O que mais te entusiasma nos próximos cinco anos no iGaming?

Adir: A personalização por IA está chegando ao ponto em que cada jogador terá uma experiência genuinamente única. Não é apenas “jogadores como você também jogaram estes jogos”, mas plataformas que adaptam interface, seleção de jogos, estruturas de bônus e estilo de comunicação com base na psicologia individual de cada jogador.

Também me anima a fusão entre games e apostas. Já vemos mecânicas de cassino em videogames e mecânicas de videogame nos cassinos. A próxima geração de jogadores não verá tanta diferença entre ganhar skins raras em Counter-Strike: Global Offensive (CS:GO) e ganhar giros bônus em slots.

Mas o que realmente me empolga são os mercados emergentes, como América Latina, África e Ásia. Nessas regiões, o salto é direto para experiências de jogo mobile-first e habilitadas para criptomoedas, algo que parecia ficção científica quando comecei.

SiGMA News: Se você estivesse lançando a Vegas Kings hoje, como faria diferente?

Adir: Eu talvez começasse direto como operador e chamasse meu cassino de Vegas Kings! Mas isso é só metade da história. Amo a trajetória que tive criando uma agência impressionante e trazendo marcas à vida.

Um passo que eu teria dado seria adicionar serviços complementares, como CRM, gamificação, media buying, entre outros. Esses serviços são essenciais para o crescimento dos nossos clientes. Nós já oferecemos alguns, mas ainda não criamos divisões específicas para atendê-los em escala.

O princípio central permaneceria o mesmo: especializar-se profundamente em um setor, em vez de tentar atender a todos. A decisão de vender a Stonewall Productions e focar apenas em iGaming foi a mais inteligente que já tomei.

Mudanças à frente

SiGMA News: Após testemunhar a transição do domínio físico para o digital, qual você acredita que será o próximo grande paradigma?

Adir: Estamos caminhando para o que chamo de jogo ambiental. Não sessões dedicadas, mas jogos integrados à vida digital cotidiana. Imagine apostar em resultados esportivos enquanto assiste Netflix, jogar mini-games de slots durante um trajeto de Uber ou ganhar fichas de cassino por meio de apps de compras. A distinção entre “plataformas de apostas” e “plataformas com recursos de apostas” vai desaparecer.

Blockchain e criptomoedas possibilitam isso ao tornar microtransações fluídas e sem atrito. Por que um app de delivery não permitiria apostar no tempo de entrega enquanto você espera?

No entanto, as implicações regulatórias são enormes. Como verificar a idade de alguém apostando €0,50 em um app de redes sociais? Como aplicar ferramentas de jogo responsável em plataformas interconectadas? As empresas que resolverem isso primeiro — não apenas tecnicamente, mas também regulatória e eticamente — dominarão a próxima década.

Tendências globais e regulatórias

SiGMA News: Na sua perspectiva, quais são os desenvolvimentos regulatórios mais impactantes atualmente moldando o iGaming? Por exemplo, a recente decisão da Índia de banir jogos com dinheiro real enquanto promove e-sports chamou atenção global.

Adir: O movimento da Índia é fascinante porque mostra que os reguladores estão começando a fazer distinções sofisticadas entre diferentes tipos de entretenimento digital. Eles não estão banindo todos os jogos, mas criando um quadro onde jogos de habilidade (e-sports) são incentivados, enquanto jogos puramente de azar têm restrições. Esse é o futuro da regulamentação: nuances em vez de regras binárias. Não é mais “jogo ruim, game bom”, mas sim “este tipo de aposta nessas condições com essas proteções”.

O que me empolga é a regulação proativa — lugares como Ontário e diversos estados dos EUA estudaram os erros de outros mercados antes de implementar suas regras. Eles estão criando frameworks que protegem os consumidores sem sufocar a inovação.

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